terça-feira, 10 de agosto de 2010

Narradores de Javé

Hoje gostaria de falar sobre um filme brasileiro chamado Narradores de Javé. Fiquei simplesmente encantada com a forma descontraída que foi abordado a importância da preservação e manutenção do patrimônio como forma de assegurar a memória e ou história de um povo. 

O filme retrata a história de um povoado chamado Vale do Javé que corre o risco de ser inundado devido à construção de uma barragem. Seus habitantes diante a perda eminente se vem forçados a encontrar uma solução de modo a garantir a sobrevida de sua terra. Em uma reunião fica decidido que seria necessário encontrar algo que fosse importante no local, qualquer tipo de bem que merecesse ser preservado e assim tornar-se patrimônio. Em torno dessa busca, a população que em sua maioria é analfabeta, decidi reconstruir a memória da fundação do Vale, utilizando para tanto, a narrativa dos moradores. Acreditavam que se a estória torna-se história mediante a passagem dos contos falados para a linguagem escrita, o povoado seria poupado.

A possibilidade de contribuição na escrita da história de Javé deixa o povoado extremamente animado, e todos contam sua versão, sempre ressaltando as características de valentia e povo guerreiro, independente do interlocutor. O responsável por anotar todas as estórias é Antonio Pia, um dos poucos letrados. Mas este após ouvir as diversas estórias, decide que nada vai escrever, por não acreditar na possibilidade de êxito frente a inundação. O filme termina com o olhar entristecido e passivo dos moradores, que ficaram até o momento da água cobrir completamente as construções. Chama atenção, que fora os objetos pessoais de cada um, o único bem coletivo a ser salvo foi o sino da igreja, sendo esse o símbolo de um novo recomeço.

Esse longa é um bom exemplo da reação das pessoas frente a momentos de ruptura ou transformação na malha urbana. Somente quando sentimos que podemos perder algo valioso é que nos mobilizamos para preservá-lo. Mas porque isso acontece? Os bens materiais que se perpetuam na sociedade fazem parte da herança cultural, que é passada de uma geração a outra. Graças a essa capacidade de transmissão de conhecimento que a sociedade esta em constante evolução. Além disso, ao olharmos esses signos nos remetemos à época em que foram construídos, eles estão impregnados de lembranças. Esses bens materiais nos auxiliam a reconstruir a história, a evolução daquela sociedade especifica. Por isso são sempre datados, pertencem a um lugar e a um tempo especifico. Preservá-los é uma forma de garantir a sobrevida dessas lembranças, dessa memória. Através da preservação desses bens materiais (ou mesmo imateriais) há a sobrevida do grupo, de suas características e tradições. A manutenção desses bens, tornamos nossa história visível, estabelecemos um elo com o passado. 

Da década de 70 para cá a questão do patrimônio e sua preservação tem se tornado cada vez mais importante.Nesses últimos 30 anos muito tem se discutido, houveram avanços na legislação e na forma de preservação e manutenção desses bens. Mas ainda há muito o que fazer no que se refere a educação patrimonial. É necessário que haja uma conscientização da população acerca da importância da preservação, afinal "só se preserva o que se ama, e só se ama o que se conhece". 

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Cada um no seu Quadrado!


Quem não se lembra do hit Dança do Quadrado? Com letra simples e uma rima quase infantil ganhou popularidade rapidamente e que virou sucesso nas rádios ganhando inúmero vídeos na rede. E é inspirado na letra dessa música que é baseado o assunto desse post. 


Alguns anos atrás era extremamente dificil se conseguir publicar um livro. O processo era caro, demorado, e era necessário convencer as editoras da qualidade do material e a possibilidade de lucros com a venda. Mas, de um tempo cá houve uma "democratização" na área, e agora é muito mais fácil e rápido lançar uma obra, seja ela sobre o assunto que for. 

Comprei um livro chamado Livro dos Sábios, magos, mestres e profetas onde o autor se propõem a fazer uma revisão da história espiritual da humanidade destacando as mais importantes personalidades dentro de cada grupo religioso. Infelizmente não verifiquei a biografia do autor, e só fui saber quem ele realmente era quando já havia adquirido o livro. 

Foi nesse momento que tive uma grande surpresa Carlos Brasilio Conte é um cirugião-dentista! Eu me pergunto, o que leva um dentista a escrever sobre esse assunto? Baseado em que conhecimentos? Como a editora aceitou esse tipo de obra? 

Durante a leitura, a falta de preparo do autor fica evidente. Ele não cita as fontes ao longo do texto, faz uma narrativa como se fosse a testemunha ocular de cada acontecimento! A bibliografia, também aparece de uma forma nada convencional, é dividida por personagem.

Enfim, a democratização da publicação de livros acaba proporcionando a ocorrência desse tipo de situação. Escrever e publicar um livro toma tempo, exige uma grande dedicação e principalmente conhecimento e segurança frente ao conteúdo exposto. E é por isso que devemos escolher um tema que esteja na nossa área de conforto, e escrever dentro da nossa área. Lembrem-se ado ado cada um no seu quadrado! 
   

domingo, 18 de julho de 2010

É hoje fazem três dias de chuva seguidos...o que por si já seria o suficiente para deixar qualquer um abalado. Afinal, por mais que seja gostoso dormir ao som da chuva, ou assistir um filme, ler um livro, chega uma hora que o tédio de estar preso em casa se faz presente com toda a força. 

E para piorar hoje é domingo....justamente domingo, o pior dia para se ficar em casa...na televisao nada, absolutamente nada de bom..se bem que, hoje passa episodios de Cilada no multishow... Com toda essa chuva tudo parece tão desanimado, e essa desanimação é terrivelmente contagiosa...Dizem que é por isso que as pessoas ficam mais propensas a depressão no inverno, quando os dias de sol não são tão frequentes...o frio e o tempo nublado ou chuvoso aumentaria o desejo de ficar em casa, isolado...Eu ainda acrescentaria mais uma alteração no comportamento das pessoas, a fome parece muito maior...não há quem não engorde no inverno....as comidas são mais gostosas, mais pesadas e quentes! uhhh já esto ficando com fome só de pensar!

Bom, só nos resta torcer para que São Pedro volte as boas com o RS e o sol volte a brilhar...e que chegue segunda-feira logo..e com elas idéias interessantes para postar no blog. 

sábado, 17 de julho de 2010

Em um dia chuvoso como hoje, ainda mais com esse friozinho, um bom programa para quem vai ficar em casa é ler um livro e, justamente hoje, chegou os livros que comprei semana passada. Aproveitei então, para me acomodar preguiçosamente embaixo das cobertas e comecei a ler o livro de Maria Helena Pires Martins, intitulado Preservando o patrimônio e construindo a identidade. E é sobre esta obra que gostaria de comentar. 


A autora é formada em filosofia e durante a sua trajetória se dedicou ao estudo da história da arte, teatro, cinema, e língua estrangeira. Lecionou tanto em escolas como na universidade. Com um currículo desse, fiquei muito curiosa para saber de que forma seria conduzido o tema proposto no livro.  

Quando comecei a ler a abertura fiquei um tanto quanto preocupada, achei que mais uma vez tinha entrado pelo "cano" e feito mais uma escolha equivocada. Tenho o péssimo hábito de comprar os livros sem consultar antes as referências do autor. Logo, no início da leitura fiquei a par de que esta obra faz parte de um projeto chamado Aprendendo a com-viver, que é voltada a educação de jovens a cerca de diferentes valores sociais. É uma iniciativa muito interessante e que com certeza merece ser divulgada. Contudo, quando comprei o livro achei que teria uma caráter mais acadêmico, voltado para um público de especialistas. Confesso que fiquei um pouco desanimada, mas mesmo assim, resolvi começar a leitura. 

Logo de cara percebi que meu pré-conceito inicial foi extremamente equivocado! O livro é simplesmente incrível!!! O tema é trabalhado com muita leveza mais não deixa a desejar em nada para nenhuma obra mais rebuscada e ou voltada para o público acadêmico. Os conceitos de patrimônio, cultura e identidade são trabalhados ao longo das 46 páginas de forma natural e simples mas ao mesmo tempo muito consistente. 

Recomendo a leitura a todos que queiram saber mais acerca do patrimônio e sua importância na construção da nossa identidade (individual e/ou coletiva). E lembrem-se...não julguem o livro pela capa e nem pela abertura! 

Ótima leitura a todos!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Gostaria de estreia o blog com um assunto bem atual e que envolve parte do patrimônio da nossa cidade - a iniciativa da empresa Coral, que lançou o projeto "Tudo de cor para você" que tem como objetivo resgatar a cor e a magia de cartões postais de diferentes cidades do país. Essa semana o programa chegou na capital dos gaúchos...e por iniciativa de votação popular através do twitter ou através do site da empresa, a comunidade local escolhe a parte da cidade deve ser revitalizada: a Rua João Alfredo, no bairro Cidade Baixa. 
A primeira vista parece uma boa iniciativa, mas ao olharmos com mais cuidado alguns pontos podem ser questionados. A começar pela a forma como são escolhidas as áreas a serem pintadas. É muito interessante a participação na população, mas uma intervenção como essa, que modifica externamente edificações e que pode resultar numa descaracterização do imóvel deve ser bem pensada. Na João Alfredo, foram escolhidos imóveis representativos do período eclético, vale ressaltar que nessa área já na década de 70, já havia um interesse de preservação de diversas edificações, ficando esse desejo registrado na lista de Curtis, onde através da numeração dos mesmos, foram listados como bens de interesse de preservação para o Municipio de Porto Alegre. Apesar de não terem sido tombados, o fato de serem listados, já deveria influenciar na escolha para atuação tão generosa da Coral. Bens de interesse público devem receber um cuidado mais cauteloso. 
Outro fato de chama a atenção foi a escolha das cores, que segundo os organizadores do projeto foram inspiradas no famoso por do sol do Guaíba. Não vou discutir nesse momento se é o mais lindo do país ou do mundo, ou se o Guaíba é rio ou lago ou nenhum dos dois, nem vou entrar no mérito do significado do mesmo para a população, motivo destacado pela equipe em questão. Vou apenas dizer que mesmo não se tratando de uma restauração propriamente dita, que implicaria em uma equipe de técnicos especializados na área que fariam inicialmente uma retrospecção de cor para saber o tom original, a Coral deveria ter escolhido outro critério que não um tão inrresponsável assim! Por melhor que tenham sido as intenções, é um ato totalmente leviano descaracterizar os imóveis de modo a adequa-los com os diferentes tons do por-do-sol. Parece brincadeira, mas não é. Se a escolha iria se basear em algo que identifica-se a população com a nova cor das edificações deveriam ter escolhidas outras, de preferência de não estivesse listado para preservação ou não tenha um século ou mais de vida. 
Claro, que muitos apoiam a iniciativa da Coral, ou por desconhecer o impacto que essa ação tera sobre os imóveis, ou por simplesmente não se importar. Creio que atitudes como estas deveriam ser fiscalizadas de perto pelos órgãos responsáveis pela preservação do patrimônio. E enquanto isso não acontece, vamos sentar e continuar assistindo passivamente a mutilação do nosso patrimônio arquitetônico. O mais antagônico nisso tudo, e ler o comunicado de abertura do projeto da Coral onde diz "plantando nas pessoas o sentimento de zelo e valorização pelo lugar aonde vivem(...)" Como eles conseguem plantar zelo e ao mesmo tempo modificar descaradamente as edificações? Seria a implantação do zelo fake para a edificação fake?